Meus cúmplices são os negros de todas as raças.
Heiner Müller
Pretos, meus irmãos.
Num dia do ano de 1999 recebíamos o público para mais uma função do espetáculo Companheiros, no Teatro Glauce Rocha, quando chegou o Padre Ricardo Rezende. Eu o cumprimentei e agradeci sua presença, ele ficou um pouco surpreso. Nós não nos conhecíamos. Ou melhor, ele não me conhecia. Eu acompanhava sua luta contra o trabalho escravo. Já éramos companheiros. Naquele dia nasceu uma amizade e, sem que eu soubesse, começava a história deste nosso espetáculo. No ano seguinte quando montamos Morte e Vida Severina, Ricardo foi conversar com o elenco sobre a realidade do trabalho escravo no Brasil. O elenco ficou perplexo. Trabalho escravo não era força de expressão. Ao contrário, eram dados concretos e alarmantes: a escravidão contemporânea.
Em 1984, Leonardo Boff sentava na mesma cadeira que séculos antes sentou Galileu Galilei diante do Santo Ofício. Qual era o seu pecado?
Um documento do departamento de Estado Americano considera a Teologia da Libertação mais perigosa do que o comunismo. Por quê?
Em El Salvador um bispo é assassinado logo após rezar uma missa. Dias antes tinha previsto seu assassinato, com a certeza que seu corpo ressuscitaria na luta do seu povo. Até quando precisaremos de mártires?
No Brasil, hoje, uma criança corta uma tonelada de cana por dia. Justiça social?
A Missa dos Quilombos canta os novos Quilombos, as novas formas de resistência, as novas utopias. A esperança de um mundo mais justo e fraterno. A fé na periferia do mundo, a “memória subversiva de Jesus de Nazaré”. Milton e os Pedros se tornaram novos companheiros imprescindíveis nestas lutas de libertação. O elenco mais que profissional foi cúmplice.
Nossos cúmplices são os negros de todas as raças.
